CRÍTICA DA SEMANA
MONÓCULO (2024), DE STÉPHANE GHISLAIN ROUSSEL
Monóculo ou microscópio? Antes de continuar, penso que é importante esclarecer estes dois conceitos: um monóculo é um tipo de lente utilizada para corrigir a visão de um olho; um microscópio é um instrumento que torna visível objetos que são invisíveis a olho nu. Enquanto o monóculo apenas iguala a realidade que já vemos com um dos nossos olhos, o microscópio dá-nos a ver aquilo que escapa à visão humana. Na minha opinião, o teatro acaba por ser um microscópio da vida. É uma arte que permite mostrar ao espectador o que este de outra forma não veria. No caso deste espetáculo, dá-nos a ver a vida de Sylvia von Harden, uma jovem jornalista dos anos vinte. Uma figura que, sem esta peça, só poderíamos conhecer através do Retrato da Jornalista Sylvia von Harden, uma pintura de Otto Dix. E há uma grande diferença entre olharmos para um retrato e vermos a personagem viva à nossa frente, a falar e a mexer-se. O teatro dá-nos a oportunidade de ver o ser humano num plano mais aproximado. Noutras palavras, dá-nos a ver o que está no quadro, mas que transcende a nossa visão e compreensão.
Esta peça passa-se nos loucos anos 20 no ateliê de Otto Dix, um pintor expressionista. Este retrata Sylvia von Harden, uma mulher emancipada, um ícone desta época histórica. Durante as várias sessões de trabalho, esta expõe o mundo artístico e a sociedade da altura, sem deixar de manifestar as suas convicções arrojadas e a sua sede de liberdade, em todos os sentidos do termo.
O texto é muito interessante, pois não contempla as respostas do pintor. Ao mesmo tempo, também não se trata de um monólogo, uma vez que o diálogo está tão intrínseco que o espectador quase consegue ouvir as respostas. Para além disto, é algo desconexo. É um texto que deixa espaço para a imaginação do público, contendo, a meu ver, a dose ideal de confusão.
É ainda uma peça que aborda a questão do género. Sylvia von Harden é uma mulher estranha para o seu tempo. Apresenta-se de cabelo curto, monóculo, um vestido que não a favorece e de cigarro na mão. É, portanto, uma mulher que foge às convenções da época, no que diz respeito ao género feminino. Sente-se fisicamente e espiritualmente presa à roupa que veste, ao género que lhe é impingido. Neste espetáculo, esta ânsia por uma fluidez de género é levada ainda mais longe, ao escolherem um ator masculino para fazer este papel. Ver esta mulher num corpo masculino reforça a ideia de que o género é aquilo que queremos que seja, é aquilo que a sociedade define. Resume-se a um conjunto de características a que é dado um nome e que dita a forma como nos relacionamos uns com os outros. Neste sentido, no fim do dia, que importância têm estas designações, por que é que lhes atribuímos tanto peso? Afinal, não somos todos pessoas?
A conceção do espetáculo era, em si, fantástica. O ambiente "vintage" e expressionista que é trazido para palco era muito curioso. No entanto, senti a falta de qualquer coisa. E por mais que tente perceber o quê e porquê, não chego a nenhuma conclusão. Foi a primeira vez que saí do teatro sem saber o que tinha acontecido. Pergunto-me se foi o texto, se foi o cenário, se foi o ator, se foi a encenação... Porém, para mim, todos esses pontos estavam individualmente bem trabalhados. Foi o conjunto desses elementos que resultou num vazio inexplicável. Apesar disto, acredito que este "não saber" também faz parte da experiência do espectador e, por isso, não devemos ignorá-lo ou escondê-lo, pelo contrário, devemos dar-lhe voz.
Eu gostei particularmente do cenário, uma vez que remetia para o estúdio de um pintor dos anos vinte. Havia um gira-discos, um quadro da sua autoria pendurado, uma mesa com um "cocktail" que se enchia sozinho e os cigarros acendiam-se "como antigamente"... Além disto, tinha janelas baças, por onde conseguíamos ver as sombras das árvores, conferindo um tom melancólico ao espaço. Apreciei também bastante a caracterização. A maquilhagem juntamente com o figurino criavam uma figura marcante, uma figura que parecia ter saído diretamente do quadro. Relativamente à projeção de imagens ou o jogo de sombras criado, penso que só fazia sentido no momento em que a personagem entra em delírio. De uma forma geral, era demasiado ilustrativo e redundante, acabando por nos distrair do ator.
No que diz respeito à interpretação, penso que foi muito boa. O ator passava a maior parte do espetáculo numa posição fixa, a posar para o pintor. E isto, para além de ser impressionante, permitia-nos perceber as possíveis transformações que podem surgir dessa imobilidade. A voz, por sua vez, ao emergir deste corpo peculiar, não se esgotava numa imitação de uma voz feminina. Era uma voz que vinha de um sítio de construção e não de um sítio de fingimento.
Quando o espetáculo termina, ficamos com a sensação de que conhecemos "uma mulher fora do seu tempo". Contudo, a este pensamento segue-se imediatamente uma pergunta: mas será uma mulher do nosso tempo? Infelizmente, não consigo dizer com certeza se Sylvia von Harden pertence ao nosso tempo. É uma figura estranha para o seu tempo, uma figura do futuro, mas será este futuro 2024? Terá a sociedade atual uma mente assim tão aberta? Na minha opinião, não, ainda há um longo caminho por percorrer. O género continua a estar muito preso a uma ideia binária e a ter uma série de características associadas. O cabelo curto ainda é chamado de "cabelo à rapaz"; cigarro é agora unissexo, mas os pelos do corpo, antes unissexo, são atualmente considerados masculinos. Quanto ao monóculo, este acabou por simplesmente cair em desuso. Em suma, os direitos das mulheres e a questão do género evoluíram bastante nestes cem anos, mas não o suficiente. O que é então o próximo passo? Eu penso que é deixarmos de nos preocupar com a nossa imagem, com o que a sociedade pensa ou deixa de pensar, porque no dia em que largamos essa preocupação, todos estes rótulos vão deixar de ter importância. Em poucas palavras, é deixarmo-nos ser pintados.
Espectador Anónimo

