CRÍTICA DA SEMANA

MONÓCULO (2024), DE STÉPHANE GHISLAIN ROUSSEL

 Um retrato: o monólogo do monóculo

 O monóculo, fragmento de óculos, dá a visão apenas a um dos olhos; ao olho nu apenas lhe é concedido o poder das margens. Esse instrumento insere-se no tempo e fragmenta-o dinamicamente, em estado contínuo de mutação. O retrato isola o que quer dar a ver, empurrando para as margens da sua moldura os infinitos não revelados. Assim, o espectáculo cria uma tensão entre o monóculo, que abre brechas no tempo e faz alguém ver o que pode ou quer ver, e o retrato que tenta resolver essas mesmas brechas para dar a ver coagulado o que outrem viu. A visão selectiva interpreta a percepção fragmentária da realidade e deixa a imaginação preencher lacunas.

 O actor Cristóvão Campos faz do monóculo o seu objecto de trabalho: o foco no gesto, a consciência corporal a viver o presente, a impostação da voz adequada à personagem, sem caricaturar, mas criando marcas específicas que quer dar a ver ao público aquilo que ele vê no retrato de Sylvia e o que ele constrói no retrato de si a fazer de Sylvia. Não se trata de representar a mulher Sylvia, não passa por ser um homem a disfarçar-se de mulher. É uma respiração tão humana, com assombrações e desejos tão humanos, que entendemos a omissão parcial do nome no título da peça, – Sylvia passa a S. –, como a perda de uma identidade consensual, de um género social estabilizado e dócil.

O espectáculo revela-nos que quanto mais cicatrizes, mais pinceladas, mais sombra e menos transparência. Não deixa de ser um pacto fáustico, que lembra ainda Dorian Gray, que a própria personagem evoca. A negociação com a sua identidade não permite a exclusão da sua sombra. A liberdade não é apenas a ausência de opressão, mas também requer o reconhecimento e a confrontação de verdades sombrias. S. tenta voltar a ser aquele fragmento retratado; – o que pode fazer o espectador questionar: que retrato quero ser e de que retrato fujo eu? Tudo acaba como começou, mas na repetição há a diferença: S. já não consegue ser a mesma S.... O rosto assume contornos da sua sombra e já nem bebe o último copo de licor que magicamente sempre volta a ficar cheio.

Sérgio das Neves