CRÍTICA DA SEMANA

MONÓCULO (2024), DE STÉPHANE GHISLAIN ROUSSEL

Os Loucos Anos 20 em Sombras Chinesas

Um paradoxo ampliado

– retratar o progresso através da imobilidade. Uma mulher pousa para Otto Dix - Sylvia Von Harden - um retrato de desconforto salientado por tons vermelhos. Um violento contraste com a palidez fria da cara (que usa um monóculo, um círculo preto em torno do olho direito), das mãos e do tampo da mesa;

onde repousam os cigarros e um cocktail esverdeado (o do espetáculo é mágico e de onde veio há mais, um reabastecimento sem que ninguém toque no copo).

É urgente falar da performance de Cristóvão Campos, com a mesma urgência com que aborda o frenesim alemão de uma Berlim entre-Guerras

– débil mas com fogachos de vida nos salões, nas galerias, nos cabarés... Sentimos-lhe o brilho nos olhos quando se entusiasma e rompe a postura em tons de anúncio e deleite.

Interpretação icónica a pisar a fronteira subtil da celebração anafórica, febril e atormentada. É interessante entrar-se num mundo condensado em sessões de pintura, simbólico, que facilmente resvala para as inseguranças e idiossincrasias de uma época turbulenta.

Ouve-se Sylvia, petrificada ou relaxada, com uma sensibilidade que atravessa as projeções que figuram pontualmente nas enormes janelas do estúdio de Dix e rasga um cenário quase-onírico;

elogia e compara-se a bailarinas, tem frio, levanta um pouco o véu à sua história de vida e torna a queixar-se do frio como se de um pretexto se possa tratar para mudar de assunto subitamente

– uma pausa descontrolada que não pede licença, um delírio que puxa outra partilha.

O Retrato de Sylvia Von Harden foi pintado em setembro de 1926, a jornalista tinha 32 anos e foi imortalizada assim, de cigarro em punho numa tela de madeira e, desde 1961, está em Paris, no Museu de Arte Moderna. É enorme a vontade que fica de visitá-la, de se ficar um tempo a contemplar o Monóculo ali, ao vivo, a intensificar um olhar grotesco e fabuloso.

Manuel Seatra