CRÍTICA DA SEMANA
HEISENBERG — O PRINCÍPIO DA INCERTEZA (2024), DE SIMON STEPHENS
À procura de respostas
Duas pessoas, aparentemente afastadas pela idade. Ela, jovem, de gargalhada (demasiado) fácil, jovial, atrevida, faladora, curiosa. Ele, velho, sóbrio, reservado, pacato. À medida que o tempo passa (6 semanas?) ele absorve dela a leveza, o riso, a dança. Ela adquire dele a elegância, a sensatez, o pragmatismo. Há um encontro relacional algures entre as idades de ambos, como se o tempo que passam juntos encurtasse a diferença daqueles 37 anos cronológicos.
Alex e Georgie cativam-nos, mostram-nos as várias camadas que os compõem e levam-nos, de braço dado, pelas ruas londrinas e pelos meandros das suas incertezas interiores. A banda sonora é fabulosa. Muito bem coordenada com os momentos da ação. Muito bem casada com a situação emocional das personagens.
Os cenários, criados por filmagens nos locais reais, são incrivelmente transpostos para o palco e o espetador abstrai-se de um palco de teatro e é quase transportado para uma película cinematográfica. E simples blocos no palco vão sofrendo arrumações coreografadas por assistentes hábeis e leves, como ponteiros do relógio que, inexaurível e inexoravelmente, avançam de forma ritmada.
Depois destes 100 minutos, a peça continua na nossa cabeça, com as incertezas a que o ser humano sente necessidade de procurar dar resposta(s)…
Susana Canhoto

