CRÍTICA DA SEMANA

NÃO VOS ARRANCAREI A LÍNGUA // MOMENTOS HÁ EM QUE AS PALAVRAS NOS ABANDONAM (2024-2025), DE PATRÍCIO TORRES

Nesta [peça] dá-se uma espécie de vácuo temporal, é como se o tempo parasse e cada palavra valesse por mil, é uma experiência semelhante às leituras das peças de Beckett. Faz-nos ainda perceber que é através das personagens menos quotidianas, isto é, menos aproximadas da nossa realidade, que conseguimos, de facto, perceber melhor o ser humano. Um dos aspetos mais curiosos deste espetáculo é, contudo, a vertente cinematográfica, desde o cenário, a caracterização à própria interpretação dos atores. Há uma imagética forte que remete para os filmes americanos  antigos sobre pessoas de classe média-baixa e que confere vida a toda a peça, tornando-a mais psicológica e real.

Eu gostei bastante do cenário, este estava repleto de objetos velhos: torradeira, televisão, pneus, um carro pronto para ir para a sucata... que contribuíam para a tal ambiência que referi. Também apreciei a utilização destes objetos durante a peça, era quase como se contracenassem com os atores. Esta questão estava diretamente relacionada com a parte sonora: cada objeto tinha um som associado, conferindo a este cenário decadente alguma vida; vida esta que contrastava com as próprias personagens. O som tinha, no entanto, um papel mais importante do que dar voz aos objetos, este criava uma atmosfera desconcertante, incompreensível e, ao mesmo tempo, arrepiante. Por último, é de realçar a caracterização: a sujidade nas faces dos atores acentuava todos os aspetos que mencionei.

Não há grandes certezas, não há uma narrativa linear, há somente desejos e palavras, que, apesar de os termos ouvido e sentido, podemos ter simplesmente imaginado. E, para mim, é isto que torna o espetáculo tão interessante; esta possibilidade de ser muitos, de ser um acumular de possibilidades, de perspetivas, de ser uma obra aberta.

Espectador Anónimo