CRÍTICA DA SEMANA

NÃO VOS ARRANCAREI A LÍNGUA // MOMENTOS HÁ EM QUE AS PALAVRAS NOS ABANDONAM (2024-2025), DE PATRÍCIO TORRES

O escuro, a queda, o mar (sobre Não vos arrancarei a língua // Momentos há em que as palavras nos abandonam)

o espetáculo pode ser visto como um convite endereçado ao espectador, um convite a aprender a ver o escuro, a vislumbrar o breu da noite de onde qualquer aurora pode vir a ser. a ausência de sentido das ações - quase inexistentes, visto que o passado corroeu a possibilidade de afirmação do presente -, a vibração da fala musical (pensada por Artaud como uma “deformação secundária da palavra”), que pode ser vista como a expressão do cerne das coisas e seu fundo obscuro inalcançável, de acordo com o dionisíaco no jovem Nietzsche, lembram-nos da monstruosidade que habita em nós mesmos enquantos marionetes das forças que governam o destino humano, infinitamente entrelaçado a elementos determinados pelo acaso - por exemplo, e de forma preponderante, o lugar onde nascemos, a família e o círculo mais imediato de sociabilidade no qual somos “lançados”. o acidente, a interrupção brusca dos ordenamentos, mais do que a marcha da razão, configura uma história comum. o corpo fraturado é também, contudo, um corpo que pode existir de maneiras distintas: possibilidade de um novo corpo, que abriga a alteridade das forças incontornáveis das quais não podemos nos assenhorear, mas que deve atravessar a transfiguração do que foi despedaçado e, portanto, refazer, no campo das possibilidades, os elos que unem os fragmentos.

a cada movimento da luz, que coloca a questão da relação entre termos opostos, um novo objeto do cenário era desdobrado. não seria possível desbravá-lo inteiramente: seus elementos são vivos, movem-se. a máquina de lavar é repentinamente ativada (tal como o cavalinho de brinquedo que se move inesperadamente) e vislumbramos a queda de objetos, mas não há líquido a ser derramado, como em O sacrifício, de Tarkovski, em que vemos o leite ser submetido à força da gravidade (aliás, não há água nem líquidos em cena, senão no momento em que ouvimos o som do mar). a queda é, simplesmente, aquilo a que somos submetidos repetida e repentinamente. resta-nos saber cair (ou aproveitar seu impulso para saltar), mas é isso precisamente que a arte não nos pode ensinar, como demonstrado no destino final de Bas Jan Ader, que performa uma série de quedas, como de uma cadeira em cima de um telhado, em Fall 1, de 1970, e que em In Search of the Miraculous desaparece no mar cuja força o devorou impiedosamente. o som do mar, como escapismo da imobilidade, pode evocar, na verdade, uma vontade de indistinção em relação ao movimento das ondas, que daria vazão, por sua vez,  a um desejo de escapar da dinâmica do desejo. a lembrança do decaimento em questão no pecado original, a constatação terrível do desejo latente de ser carne sempre pronta a consumir tudo ao redor. o poder de destruição é, ainda, um poder de reinvenção, por mais que resulte num produto terrível e precário. é a terra que nos molda, é a ela que devemos retornar. mas não há mais nenhuma terra prometida, da qual emanaria leite e mel, na geografia da contemporaneidade. os sons dos elementos estilhaçados continuam a ecoar e podemos ver, se vislumbrarmos o escuro, as imagens dos objetos estilhaçados em queda, submetidos ao impulso que produz a proximidade à terra, que povoa literalmente o espaço do palco.

apesar dos elementos reivindicados, como a própria folha de sala indica, relacionados ao teatro do absurdo é, ainda, a partir da revolução colocada pelo naturalismo e pelo realismo em termos de encenação - como quando quando Antoine levou pedaços de carne de carneiro ao palco em Os açougueiros, de Fernand Icres em 1888, que Roubine diz fazer emergir uma “nova vertigem, a perturbação excitante da incerteza” - que o teatro movimenta-se, delimitando-se na negação. o humano é, sobretudo, aquilo que foi apartado da divindade, alienado de toda possibilidade de reconciliação com qualquer unidade que possa dar conta da totalidade. contudo, diferentemente de Hedda Gabler, que ao mesmo tempo brinca com a pistola e dilacera seus miolos com ela, o movimento em direção à morte é interrompido. o futuro, no entanto, como Deus, é também uma ficção e acaba por testemunhar nossa capacidade incessante e infinita de fabular, motivo pelo qual o teatro continua a existir.

Ana Carolina Chaves