CRÍTICA DA SEMANA
NORA HELMER (2025), DE JOÃO LOURENÇO E VERA SAN PAYO DE LEMOS
Nora Helmer: a liberdade em vermelho
A Nora Helmer que nos é dada a ver é um corpo adiado em vias de transformação. À imagem da própria estrutura da encenação – que divide o drama em duas partes; a primeira em filme e a segunda em palco – a personagem de Ibsen-Hnath torna-se um ponto de inflexão, espaço indistinto, entre o dentro e o fora, o lar e a errância, o passado e o porvir.
Nora Helmer encena esta condição limiar em toda a sua violência subtil e teatral, testemunhando a impossibilidade da mulher coincidir com o lugar que lhe foi atribuído e problematizando as possibilidades da presença feminina no interior das estruturas normativas da sociedade. A sua figura dramatiza o modo como a mulher, quando tenta assumir a palavra, o desejo, o movimento, se torna imediatamente excessiva, deslocada, intempestiva.
A passagem do filme a preto e branco para o palco em carne e osso não é apenas uma mutação técnica, mas um acto de desdobramento da sua natureza fundamental. O filme, na sua frontalidade, nos grandes planos de rosto e na velocidade dos acontecimentos, instala uma presença espectral. O vestido vermelho de Nora, único ponto de cor viva nesse mundo cinzento, não é só um ornamento visual: é um excesso, um resto de corpo vivo que ameaça transbordar o ecrã e já antecipa a sua saída.
O cenário em expansão torna-se não só signo da aceitação de Nora, mas metáfora do desdobramento interno que a própria encenação opera. À medida que as divisões da casa se abrem, revela-se um espaço, antes prisão, onde se experimenta as subjectividades. No final, Nora parte porque já não pertence plenamente àquela morada: já não existe. Há uma demora em Nora – um habitar por instantes, esse gesto de aproximação e afastamento – que é onde ela daqui em diante mora. Como se o próprio espectáculo nos dissesse: não há casa que nos possa conter, nem poder que nos enfraqueça. A única fidelidade possível é à metamorfose.
Sérgio das Neves

