CRÍTICA DA SEMANA
UM URSO NO UNIVERSO (2025), DE DEA LOHER
Um urso no universo ou Nenhum urso no universo? Neste espetáculo, conhecemos um urso-polar, ou melhor, o último urso-polar do universo. Um urso que luta dedicadamente contra a extinção da sua espécie; afinal, um urso no universo, em poucos anos, equivalerá a nenhum urso no universo. Neste espetáculo para crianças, encontramos então uma chamada de atenção, um convite a refletir sobre o estado atual do planeta Terra: um planeta que está a derreter de dia para dia, deixando de ser habitat para inúmeras espécies. Noutras palavras, lança a seguinte pergunta: o que estamos a fazer para travar o aquecimento global, para travar esta extinção em massa?
Esta peça é sobre Benny, um urso-polar que, ao ver a sua casa a derreter, resolve construir uma jangada para sobreviver. Sem rumo aparente, a sua viagem leva-o à Polinésia, onde conhece uma galinha chamada Polly. Esta dá-lhe a conhecer este lugar quente, muito diferente do Ártico, ensinando-o a viver naquele espaço. Contudo, a verdadeira preocupação de Benny é encontrar uma ursa-polar para impedir que a sua espécie desapareça. Conseguirá este urso encontrar a sua companheira?
O que mais gostei desta peça é que, ao contrário da maior parte das peças infantis, o enredo não é muito previsível nem linear. Antes de continuar, é preciso avisar que vou referir alguns spoilers. A galinha e o urso, por exemplo, são, aos olhos de qualquer criança, mais do que amigos, são namorado e namorada. Estes torcem por essa união, contudo, esse não é o desfecho desta história: ambos acabam por namorar com pessoas diferentes. Além disso, não é claro se, em algum momento do espetáculo, quer o urso, quer a galinha, estão realmente apaixonados um pelo outro. O amor aqui confunde-se com a amizade, com o querer ajudar e com o desejo de companhia e matrimónio. É definitivamente um ponto que ainda não tinha encontrado num espetáculo para crianças. Porém, a verdade é que, para uma criança, a história é simples: o urso e a galinha gostavam um do outro, mas conheceram outras pessoas e viveram com elas felizes para sempre.
Trata-se ainda de um espetáculo que aborda temas muito importantes como a diversidade e o respeito pelas diferenças, a amizade e o facto de o amor estar não no exterior, mas no interior. No entanto, pergunto-me: até que ponto é que esta peça defende estes valores? Na minha opinião, parece que fica num meio-termo entre estes conceitos. (Novo aviso de Spoilers). Benny, durante a sua procura por uma companheira, conhece várias pessoas: uma girafa, uma baleia e uma ursa. Apesar de gostar da girafa e da baleia, este não consegue comunicar muito bem com elas, por terem características físicas tão diferentes deles e, por isso, rejeita-as de forma amigável. O mesmo acontece com a galinha Polly, pois, apesar de gostar muito dela, considera que seria muito estranho um urso e uma galinha apaixonarem-se e terem filhos. Neste sentido, Benny acaba por casar com uma ursa que não é polar. Senti, de certa forma, que a moral desta história é que devemos aceitar e amar todos os que sejam diferentes de nós, mas não assim tão diferentes.
Se pudesse resumir esta peça, diria que: não há muita água na Pollynésia; as girafas não gostam de peixe; as baleias passam demasiado tempo debaixo de água; as galinhas têm sonhos estranhos; e um urso perdido é o mais apetecido.
É um espetáculo repleto de comédia, de música e de aventura para todas as idades.
Eu gostei particularmente do cenário, pois era criativo e engraçado. O pormenor de que mais gostei foi a liana, que suportava o peso de uma pessoa. Contudo, é relevante mencionar que, para a criação deste cenário, a utilização da projeção foi essencial. A projeção fundia-se com o restante cenário criando uma ilusão das diferentes paisagens da vida selvagem. O som foi, no entanto, talvez o que mais apreciei do espetáculo. Este não só contribuía para a credibilidade desta história, como dava ritmo e vida a esta fantasia. Aliás, o próprio som fazia parte desta peça, por ser um espetáculo musical. No que diz respeito à luz, confesso que não se destacou. Cumpriu somente a sua função de acompanhar o enredo.
A interpretação era bastante boa. Os atores eram, simultaneamente, cantores, bailarinos e até músicos. Era impressionante assistir à facilidade com que saltavam de uma coisa para a outra. Se num momento estavam a representar, no momento seguinte estavam sentados a tocar um instrumento. Pessoalmente, gosto de ver os atores fazerem um pouco de tudo, mesmo funções que convencionalmente não costumam desempenhar e sem necessidade de se esconderem atrás de uma parede. Para além disso, penso que a energia, a entrega de todos os atores, especialmente os que faziam múltiplas personagens, era admirável e conquistava tanto as crianças como os jovens e adultos.
Quando o espetáculo terminou, não conseguia parar de pensar no seu final. Talvez as crianças o considerem feliz porque o Benny consegue encontrar o seu amor, e talvez até alguns jovens e adultos tenham a mesma opinião por este abraçar a diversidade. Contudo, se ignorarmos as danças e as canções, o final deste espetáculo é bastante triste. É aceitar um mundo onde mais uma espécie se perdeu e, por isso, interrogo-me: quantas espécies serão necessárias desaparecer para despertar a consciência humana? Ou quantos mais espetáculos serão precisos? Ou terá o ser humano de se sentir em verdadeiro perigo para fazer alguma coisa? Infelizmente, parte de mim, acredita que sim. Afinal, nós, os humanos, somos uns excelentes procrastinadores, mas uns procrastinadores de consciência limpa. Isto é, todos os dias dizemos a nós próprios: "primeiro preciso de resolver este problema urgente, que vai ter repercussões hoje e depois resolvo os que irão ter consequências mais tarde". Eu incluo-me neste tipo de pessoas, contudo, também acredito que é possível travar este raciocínio vicioso. O primeiro passo é reconhecer que o temos para conseguir quebrá-lo e agir. E entretanto, é esperar que, quando a humanidade chegue a este reconhecimento, não seja demasiado tarde.
Espectador Anónimo

