CRÍTICA DA SEMANA

O SENHOR PAUL (2025), DE TANKRED DORST

O Senhor Paul ou A Senhora I? Neste espetáculo, conhecemos um homem particular que vive no seu sofá. Podemos chamá-lo muitos nomes: preguiçoso, maluco, irracional... No entanto, nenhum destes adjetivos vai de encontro à verdadeira essência deste senhor. A sua principal e derradeira característica é a inércia (I), a resistência passiva à mudança, uma resistência que, apesar de silenciosa e discreta, conduz inevitavelmente ao caos. Face a este fenómeno, pergunto-me: será a inércia a arma mais poderosa?

Este espetáculo é sobre um senhor invulgar chamado Paul. Este não sai de casa há muitos anos e passa os seus dias sentado no sofá, com uma certa alergia à mudança. Um dia, um jovem que herdou o prédio, onde o Senhor Paul e a sua irmã moram, quer desalojá-los para construir uma lavandaria. No entanto, é surpreendido pela inteligência e pela inação do Senhor Paul, resultando num conflito inesperado que parece não ter resolução.

Pessoalmente, não conhecia esta peça, mas fiquei fascinado. É completamente fora da caixa, a sua narrativa parece seguir uma lógica linear, mas, a certa altura, troca-nos as voltas. Leva-nos para um mundo onde várias versões de um mesmo acontecimento podem coexistir, onde não existe um único sentido da mesma história. As personagens também são muito cativantes porque são extremamente peculiares, desde o que fala e não se cala, o que nada em dinheiro, o que não sai do sofá...à que corta papeis sem parar, à otimista e sonhadora e à que não perde uma boa noite de ópera. É ainda muito interessante perceber como é que o absurdo não tem pudor, como consegue ser normal. Nesta realidade alternativa, comer esparguete frio, fazer striptease, namoriscar com uma criança, (e mais não digo), parecem fazer sentido.

Outro aspeto que apreciei foram os temas abordados nesta peça: a retórica, a tolerância e o apego. Quem domina a retórica, domina-nos. Tem um poder sobre o mundo e sobre as pessoas que, apesar de subtil, é muito impactante. A personagem do Senhor Paul é um grande exemplo disto. Este distorce as conversas a seu favor, quase como se as moldasse com as suas próprias mãos. É impressionante vê-lo a escapar de um tema tantas vezes, quer seja através da mudança de tema, da indiferença ou até de uma suposta loucura. A questão da tolerância ocupa também um lugar de relevo nesta história. Quais são os limites da tolerância? Vemos um jovem a tentar que um homem saia de sua casa e vá morar para o outro lado da rua. Um homem que passou a vida sentado, a viver da boa vontade dos outros; um homem que ignora o jovem e as suas ideias. Onde é que termina a tolerância? Especialmente quando a ação do outro ou, neste caso, a inação interfere com os nossos projetos, com a nossa liberdade? A última grande temática levantada nesta peça é a questão do apego: o que é que faz alguém estar preso à sua casa? Agarrar-se a ela com unhas e dentes, como se fosse o seu bem mais precioso, como se sem ela não conseguisse respirar? Esta história pode parecer absurda e distante de nós, mas a verdade é que está muito próxima da nossa realidade, aliás, parece até ser uma anedota da nossa situação imobiliária.

Este espetáculo é especialmente marcante, por ser tão humano: mesmo quando nada faz sentido, temos sempre algo com que nos relacionar, há sempre algo que nos toca. Para além disto, como começa por ser tão próximo de nós, a estranheza tem um maior impacto, deixa-nos confusos e desamparados, o que é um sentimento engraçado para um espectador.   

É um espetáculo, para mim, cheio de adjetivos. É caótico, imprevisível, absurdo, surreal e cómico. A certa altura, não sabemos se havemos de rir, de chorar ou de gritar. Foi, talvez, o espetáculo que mais gostei de ver no Teatro Aberto. 

O cenário era intrigante, gostei especialmente da forma como este jogava com o espaço, com a profundidade, com o que está para além do nosso olhar. É ainda interessante observar a transformação que o cenário sofre, ao longo do espetáculo. Este acaba por ser um reflexo do caos da peça. É de destacar também o som, este criava uma atmosfera fora de si, o epítome da confusão. Relativamente à luz, esta tinha um papel importante, pois diferenciava os momentos de diálogo dos momentos de monólogo. Além disto, dava cores distintas às cenas, por exemplo, as cenas mais surrealistas tinham uma luz mais ténue e densa do que os momentos quotidianos. 

Os atores fizeram um excelente trabalho. Cada personagem estava muito bem trabalhada, tinha uma forma de falar e de se movimentar muito próprias. Eram caricatas à sua maneira, mas sem cair na caricatura, o que não é nada fácil. O texto não só era claro, como prendia a nossa atenção, e o movimento era como uma dança no espaço.

Quando o espetáculo terminou, não pude deixar de me perguntar: como é que o absurdo pode conduzir o ser mais lógico e racional à loucura? A ausência de sentido, o absurdo, o caos é uma força que se espalha como o fogo, que se contagia e que se alimenta do que encontra pelo caminho. Contudo, com que critério é que definimos que um grupo de pessoas são loucas e uma não o é? Não será o contrário? Como é que podemos estar certos da realidade, se tudo o que vemos são meras perceções? E, afinal, não será a vida também absurda?

Espectador Anónimo